Monte Verde hoje está presente em quase toda lista de melhores pontos turísticos do Brasil. Descrito como uma “vila alpina”, este pequeno distrito de Camanducaia está localizada no alto de vales e montanhas de Minas Gerais. Mas, poucos visitantes desse pequeno paraíso percebem - por tras das belas fachadas de madeira e exóticos nomes de ruas - a influência dos letos em sua fundação.

Este ano, as restrições sanitárias impediram nossos leitores de aproveitarem seus feriados para visita-la, mas, em uma singela homenagem ao aniversário da fundação de Monte Verde, criamos este pequeno artigo sobre sua fundação.

O Fundador

Não há como explicar a historia de Monte Verde sem explicar o homem que deu seu nome: Verner Grinberg. Descrito pelo jornal Estado de São Paulo como “fundador, xerife, consultor, benfeitor, dono - o factotum - da Vila, sem ter nenhum desses títulos” , Verner foi um grande desbravador com uma visão de industrialização e evangelismo incomparável, mas pouco conhecido fora do município que fundou.

A família Grinbergs, as vezes escrita como Grinberg ou Grimberg (“Monte Verde”, etmologia alemã mas muito comum na Letônia) chegou no Brasil em 1906 com Karlis Grinbergs, um colono de Nova Odessa. Entretanto, a família de Verner imigrou ao Brasil em 1913, quando ele possuia apenas 2 anos de idade.

Verner, seu pai Ernesto, sua mãe Isabelle, sua irmã Ema e uma cunhada se instalaram em Pariquera-Açu, um pequeno núcleo colonial no sul de São Paulo que havia atraido alguns letos (vindos de Nova Europa e Ibitinga). Juntos, eles fundaram a primeira Igreja Batista naquele município, mas falhas administrativa do governo no núcleo e melhores condições econômicas em outros lugares levaram a família Grinberg para São José dos Campos em 1916, se juntando à pequena comunidade leta que existia naquela cidade.

Em 1920, Ernesto foi um dos responsáveis por averiguar a topografia, qualidade das terras e das matas da colônia de Varpa, que seria fundada em 1922, para onde a sua família se mudou. Lá, Ernesto e seu filho Verner construíram uma serraria responsável pelo fornecimento gratuito de madeira para a construção do templo, escola e outras diversas construções na colônia. Seu sonho era de industrializar Varpa, o que alcançou com moderado sucesso - apesar das enormes adversidades.

medium center Verner Grinberg e sua esposa, D. Emília, ao lado de seu avião

Verner cresceu com a excelência de carater e personalidade industrialista do pai. Se casou com sua amada esposa, Dona Emília, e em 1936 se mudou para Bastos visando desenvolver aquela cidade. Enquanto isso, seu pai, Ernesto, voltou para São José dos Campos e passou a trabalhar com sua serraria em Campos do Jordão.

Em 1944, Verner fundou uma serraria em Inúbia Paulista, além de construir a igreja local e a moradia dos trabalhadores, ele também preparou a primeira pista de pouso do município para o seu recém adquirido avião. Todo esse aprendizado, em São José dos Campos, Bastos, Inúbia, seria útil para Monte Verde.

Foi um dos grandes amigos dos missionários batistas letos na Bolívia, não só ajudando com o também doando máquinas e equipamento (inclusive uma enorme caldeira de vapor que precisou ser transporata em um caminhão militar). Nesta época que começou a demonstrar seu grande amor por aviação e aventura. Até o ano de 1973 ele já havia feito 27 viagens com seu avião particular, levando do Brasil até a mata fechada da Bolívia um imenso número de missionários, medicamentos, peças, sem aceitar um centavo sequer.

medium center À direita, Verner Grinberg com os índios Ayoreos de Rincón del Tigre, 1959.

Um Início Quieto

O município de Campos do Jordão impressionou Verner, que em 1938, passou a procurar um novo lugar para instalar sua serraria. Seu sonho era encontrar alguma terra com densos pinheiros e belezas naturais, e os encontrou em Campos do Jaguari, distrito de Camanducaia - no sul de Minas Gerais. Após desbravar a mata, D. Emília e Verner, encantados com o lugar, adquiriram 450 alqueires paulistas. Entretanto, Monte Verde nunca teria existido se não fosse a intervenção de um amigo: Carlos (Karlis) Kempis.

Karlis Kempis chegou da Letônia com 14 anos, em 1922, acompanhado de sua mãe. Aqui conheceu e se casou com Minna Grinberg, tia de Verner. em 1949, 11 anos após comprar as terras, Verner estava a ponto de vende-las para a companhia Melhoramentos (especializada em cortes de arvore), entretanto, seu pai Ernesto convenceu Karlis e sua família a se mudarem para lá - contando sobre o clima parecido com a Letônia, as belas vistas e as oportunidades de abrir uma serraria.

O estabelecimento da família Kempis convenceu Verner a não vender o terreno. Rumores sobre a construção de uma rodovia conectando São Paulo e Belo Horizonte passando por Camanducaia, convenceu ambos amigos a lotearem glebas do terreno. Verner começou a trabalhar na pista de pouso (até hoje, a pista de pouso mais alta do Brasil) e seu hangar para o avião. O distrito ficou conhecido inicialmente como “Cadete”, nome do ribeirão que passava pelo vale.

medium center Foto de Monte Verde na década de 50

Ainda no final de 1949, várias famílias letas vieram se estabelecer no local também, construindo suas casas e formando seus pomares. Carlos Kempis começou a reunir aquelas e realizar os primeiros cultos na língua leta. A oferta de lote e oferta de trabalho também atraíram famílias brasileiras. Em 1951, o casal Leiasmeier (de Varpa) passaram na localidade iniciando a Escola Bíblica Dominical. Algum tempo demois o casal Grinberg trouxe a professora Sidália Assis dos Santos de Inúbia para abrir uma escola primária.

A contribuição de outros letos batistas, mesmo que não tenham residido em Monte Verde, também foi notável: Edgar Osins, Carlos Grigorowitsch, João Lukass, André Ceruks, Augusto Lakschevitz, Vilis Rosenholes, Arnaldo Janaitis, e muitos outros que se esforçaram para transformar aquela pequeno núcleo em uma vila punjante.

Em 1953, após construídas as residências, uma pequena serraria e olaria, os Grinbergs se mudaram definitivamente para o loteamento, registrando o nome da vila como “Monte Verde”, tradução literal de seu sobrenome. No dia 29 de Novembro de 1953, data que comemoramos hoje como a fundação oficial de Monte Verde, foram feitos os três primeiros batismos na Igreja Batista pelo Pastor João Lukass.

Crescimento

medium center Alunos de escola levam a bandeira de Monte Verde

A vida em Monte Verde era simples. A energia elétrica era gerada por uma máquina a vapor operada por Verner para os quipamentos da serraria, e das 18 até 22 horas enviada para a população. Apenas em 20 de Julho de 1969 a rede elétrica chegou em Monte Verde.

Por décadas a beleza natural do local continuou a atrair novos moradores, mas a dificuldade de chegar ao local atrasou o boom turístico. Apenas nos anos 80 a única estrada que leva à cidade foi asfaltada.

Monte Verde é a demonstração prática da expressão “jóia escondida”. Desconhecida até poucos anos atrás, a cidade explodiu com turismo e hoje figura em um dos lugares mais bem recomendados nos guias de viagem brasileiros. Hoje está se tornando o centro turístico que merece ser.

Verner Grinberg faleceu em 2006, mas a sua memória continua viva na vila. Uma recomendação para os interessados é uma belíssima entrevista concedida para a AHP de Monte Verde.

medium center Verner Grinberg em seu avião

Uma Nota Final

Neste artigo, eu me limitei a apenas explicar como Monte Verde surgiu, mas é claro que sua história não acabou aí: ela continua a ser escrita e guardada pelos seus cidadãos, que construíram com amor juntos essa pequena vila nos vales e montanhas do sul de Minas Gerais.

Nos últimos anos, a Associação Brasileira de Cultura Leta tem tentando evidenciar um pouco dessas raízes que tornaram o distrito tão único. Desde 2014, tentamos - juntamente com a prefeitura de Camanducaia - enviar algum grupo de música tradicional da Letônia para o festival de Inverno.

Entretanto, precisamos lembrar que a riqueza de um lugar não é apenas suas belas paisagens e ou atividades culturais, mas é seu povo. As inúmeras conversas que já tive com famílias ou moradores de Monte Verde sempre trouxeram-me alegria - uma acusação comum é que a história dos letos em Monte Verde foi esquecida - eu discordo: quem procura encontra (e eu sempre me divirto ao mencionar que a bandeira é uma adaptação do Brasão da Letônia)

Atualmente, estamos organizando com os moradores letos uma recuperação e preservação de história e cultura. Meu desejo, neste aniversário, é que todos os brasileiros que passem por Monte Verde sintam esse gostinho do povo que veio para deixar seu legado no Brasil.

Como disse Verner Grinberg: “Monte Verde tem muito futuro pela frente.” Daudz Laimes, Monte Verde!

medium center Grupo de Música Leto Dimanti apresentando no Festival de Inverno. Foto por Matheus Simis

Autor: Andreis Purim