No artigo passado, nós falamos como o mapa da Letônia é pontilhado por centenas de castelos medievais e como você pode visita-los. Estranhamente, pouco se fala dos palácios, solares e mansões que também formam a riqueza cultural da Letônia. Neste artigo, estaremos explicando como essas construções foram pensadas, e quais você pode visitar hoje.

Qual a diferença de um castelo para um palácio? E um solar e uma mansão? Um castelo é uma residência fortificada: isto é, além de servir como casa, ela possui uso militar e defesas, como um fosso, ponte levadiça, muralhas, enquanto um palácio é uma morada luxuosa. Um solar é uma casa de campo que servia como propriedade principal de um feudo ou propriedade rural, enquanto uma mansão é uma grande casa luxuosa - que não necessariamente possui o propósito no feudo.

E então, o que é um Pils? O que é uma Muiža? Na lingua leta, a palavra para Castelo e Palácio é a mesma: pils. Enquanto Mansão e Solar normalmente recebem o nome de muiža. É normal traduções utilizarem essas quatro palavras de forma intercambiada.

Quando os Palacios começaram a ser construidos na Letônia? Já no final da Idade Média, solares luxuosos começaram a servir de morada para os nobres feudais, sendo a maior parte de origem alemã. Alguns fatores influenciaram no surgimento: A introdução de canhões e pólvora tornaram castelos ultrapassados como fortificações defensivas, novas rotas comerciais trouxeram riquezas para as florescentes cidades mercantis da Letônia, e o renascimento trouxe novas idéias arquitetônicas.

O que aconteceu com os Palácios da Letônia? Há centenas de palácios e solares na Letônia, mas muitos se encontram em ruínas por três simples fatores:

- Guerras: A Letônia foi campo de batalha em mais de 50 conflitos de larga escala entre o século 16 e século 20. Eventos como a primeira e segunda guerra mundial foram devastadores para a arquitetura leta, com muitos dos castelos sendo reduzidos a destroços.

- Nazismo: Após a independência da Letônia em 1918, o governo fez inúmeras reformas agrárias para devolver a terra que estava na mão dos nobres alemães para os letos - o que deixou muitas das famílias nobres, os donos dos palácios, descontentes. Quando os Nazistas e Soviéticos se aliaram com o tratado Molotov-Ribbentrop, a Letônia foi deixada no lado comunista do mapa - Hitler então exigiu que todos os leto-alemães deixassem o país. Dentro de 1 semana, mais de 60 mil pessoas deixaram suas casas, abandonando os castelos, solares e mansões que suas familias há tanto tempo moravam.

- Comunismo: Durante a Revolução de 1905, 449 solares e mansões na Letônia haviam sido destruídas pelos rebeldes. Após a Letônia ser ocupada pela União Soviética em 1940, as construções que sobraram foram nacionalizadas e seus interiores foram destruídos.

1. Palácio de Rundāle

big center O Palácio de Rundāle e seu extenso jardim francês. Foto: excursio.com

Chamada de “Versailles do norte”, o Palácio de Rundāle se localiza no coração de Semigália, uma região no sul da Letônia conhecida pelos seus extensos campos. O Palácio começou a ser construído em 1736 pelo arquiteto italiano Bartolomeo Rastrelli para ser a casa de verão do Duque da Curônia, Ernst Johann von Biron. Construída com 3 milhões de tijolos por mais de mil homens, o palácio possui um estilo barroco tardio, com estuques e mármore decorativo nas paredes e pinturas nos tetos - além de todos os móveis.

A construção do castelo foi tão intensa e exigente que ele só ficou pronto 32 anos depois, em 1768. A construção do palácio exigiu a abertura de novas estradas, pedreiras e fornalhas. No terreno do Palácio foram construídas 3 igrejas e casas menores para os trabalhadores. Em 1739, o jardim - no estilo francês - começou a ser plantado. No total, foram plantados mais de 320 mil tílias, 45 mil castanheiros, e 1885 carvalhos.

O Castelo não só foi casa dos nobres mais influentes da Letônia e casa dos Duques, como também viu diversos eventos da história da Letônia. Em 1812 o castelo serviu como hospital para os soldados de Napoleão, que invadia a Rússia - vários desses soldados morreram lá e foram sepultados no jardim, onde hoje há um memorial. O Palácio também serviu de Quartel General das tropas alemães durante a Primeira Guerra Mundial e a Guerra de Independência da Letônia. Ele foi bombardeado diversas vezes durante a Segunda Guerra Mundial.

Após a invasão soviética em 1940, em um dos mais absurdos insultos à arquitetura, o Partido Comunista destruiu a sala de jantar do Palácio de Rundāle para transforma-lo em um ginásio escolar e o resto do palácio era utilizado para guardar grãos. Apenas após muitos protestos, em 1972, o museu de Rundāle foi aberto e o palácio começou a ser restaurado. O custo total dos reparos de 1972 à 2014 foi de 8 bilhões de euros.

O palácio é um dos principais destinos turísticos da Letônia. Ele também é usado para a acomodação de hóspedes notáveis, como líderes de nações estrangeiras. O palácio e os jardins são parte do museu e podem ser visitados.

big center Lateral do palácio, no inverno. Foto: delfi.lv

2. Solar de Liepupe

big center Um casamento no Solar de Liepupe. Foto: photorent.lv

Localizado no norte da Letônia, Liepupe começou a ser construído em 1751 sob ordens de Anna Sofija Meks. Seu filho, Georg Friedrich trouxe dos seus anos de serviço militar experiência em design de interior e arquitetura da Saxônia e, com o projeto do mestre em alvenaria Johans Andreass Hāberlands, construíram o solar.

O Solar sobreviveu intocado pelas guerras. Em 1922, a reforma agrária transformou-a em propriedade do Governo da Letônia. Em 1930 uma escola de agricultura foi aberta na propriedade. Após a ocupação soviética, o solar foi o centro de um sovkhoz (uma fazenda coletiva soviética), até ser abandonado no final do regime comunista. Com os anos, a propriedade se deteriorou até sobrar apenas as paredes e telhado - ambos em péssimo estado. Em 2003, o solar foi incluído na lista dos 100 monumentos históricos mais ameaçados.

Em 2004, a propriedade foi comprada por uma jovem de 34 anos chamada Egita Lauska - que sonhava em restaurar o solar. Durante 8 anos ela trabalhou sozinha na restauração da construção e do jardim. Após 15 anos conseguiu propriedade total da construção. O Solar possui 16 quartos majestosos e vários salões que servem como hotel. Um salão principal que serve como restaurante e uma sauna que serve como spá.

Você pode se hospedar no solar ou visitar seu extenso bosque e gramado de flores, com mais de 96 mil tulipas.

big center Interior do Solar de Liepupe. Foto: latvia.travel

3. Palácio de Jaunmoku

big center O Palácio de Jaunmoku, visto do lago. Foto: Valdis Skudre

Um dos palácios mais “recentes” da Letônia, Jaunmoku foi construído em 1901 para ser uma casa de caça para o prefeito de Riga, George Armitstead. Armitstead nasceu em Riga, filho de uma família mercante inglesa. Após estudar nas Universidades de Zurique e Oxford, ele retornou a Riga e se tornou uma das figuras mais importantes na cidade. Em seu termo como prefeito, Riga mudou rapidamente: ele construiu muitas das construções modernas, 13 escolas, 3 hospitais, o Museu Nacional, o Zoológico de Riga, Bibliotecas e Cafés. A indústria e o comércio desenvolveram-se significativamente. Durante o período em que foi prefeito, Riga deixou de ser uma pequena cidade e se tornou uma grande cidade europeia.

Armitstead era dono da propriedade desde 1885, mas apenas iniciou a construção em 1901. O estilo do castelo é unico por combinar arquitetura Neo-gótica com influências da Art Nouveau. George precisou vende-la em 1904, falecendo alguns anos depois. A propriedade passou de mãos até ser nacionalizada em 1920. Um processo de restauração foi iniciado em 1974 e hoje o Palácio é administrado como museu pelo Serviço Estatal de Florestas da Letônia.

Além de visitar o museu, o jardim e participar das inúmeras atividades que são realizadas lá, você pode aluga-lo para eventos, como aniversários e casamentos.

big center A frente do Palácio de Jaunmoku. Foto: latvia.travel

4. Solar de Skrunda

big center A frente do Solar de Skrunda. Foto: skrundasmuiza.lv

O primeiro castelo de Skrunda foi construído em 1340, mas destruído durante o século 17. O atual edifício foi projetado por Johans Berlics, um arquiteto da corte real da Prússia, mas apenas construído em 1849, dez anos após sua morte. O Solar é um dos exemplos mais notáveis - e o último exemplar a ser construído na Letônia - da arquitetura clássica. Seus pórticos e janelas semicirculares alongadas dão um ar único à construção.

Diferente dos outros solares e palácios, Skrunda não era casa de nenhum nobre ou barão, mas servia como propriedade do Estado. Além de casa temporária, serviu de prisão, farmácia, escola e colégio. Sobrevivendo a guerra, Skrunda continuou a ser um colégio por 60 anos, até meados 1968. Após décadas de negligência da administração soviética, o Solar se encontrava em péssimo estado. Em 2005 a propriedade foi comprada e a restauração começou.

Skrunda recebeu os prêmios de melhor renovação e melhor edifício da Letônia em 2011. Hoje Skrunda serve como hotel, spá, restaurante e local para eventos.

big center A parte de trás do Solar de Skrunda. Foto: skrundasmuiza.lv

5. Palácio de Jelgava

big center A frente do Palácio durante o Inverno. Foto de latvia.travel

A construção do palácio começou em 1738, em uma ilha fluvial no centro da cidade de Jelgava. Jelgava era a capital histórica do Ducado da Curônia e a moradia permanente dos Duques. Ernst Johann von Biron decidiu renovar o antigo castelo medieval e transforma-lo em um palácio luxuoso, para isso teve ajuda dos arquitetos Bartolomeo Rastrelli e do dinamarquês Severin Jensen. A construção foi terminada oficialmente em 1772, apesar de muitos quartos ainda estarem em progresso.

O Palácio de Jelgava é a maior construção do estilo barroco nos estados bálticos, mas também possui uma pitada de elementos de classicismo. O palácio também possui uma ala funerária no subsolo sudeste, com 21 sarcófagos e nove caixões de madeira. Todos os Duques da Curônia das dinastias Kettler e Biron foram enterrados lá entre 1569 e 1791.

Quando a Revolução Francesa decapitou o rei Luís XVI, seu irmão Luís XVIII fugiu e viveu no Palácio de Jelgava entre 1798 e 1807. Luís XVIII depois retornou a França como rei entre 1814 e 1824. O Palácio foi destruído e saqueado por forças alemãs durante a Guerra de Independência da Letônia e se tornou propriedade da República da Letônia - que começou o processo de restauração. Em 1939, foi estabelecido no palácio a Academia de Agricultura de Jelgava. Ele foi destruído novamente durante a Segunda Guerra Mundial e hoje hospeda a Universidade de Ciências da Vida e Tecnologias da Letônia.

Você pode não só visitar o Palácio como ter aulas lá dentro, seja de cursos de bacharelado, mestrado, especialização ou até mesmo intercâmbio.

big center Estudantes da Universidade, no jardim interno do Palácio. Foto: www.llu.lv