Quando um brasileiro conhece algum brasileiro fora do Brasil, uma das frases que certamente será dita nesta conversa é: “tem brasileiro por tudo que é canto”. Há, entretanto, duas outras frase parecidas, menos conhecidas - que se aplicam apenas aos letos-brasileiros: a primeira é “leto é tudo farinha do mesmo saco” e a segunda é “tem leto por tudo que é canto”.

Em uma experiência anedótica, eu estava pegando uma carona com alguns colegas estudantes da Unicamp. Dentro do carro, conheci um outro jovem estudante de Engenharia Mecânica que rapidamente identifiquei pelo sobrenome Klava. Perguntei se era leto, e era mesmo. Alguns meses depois, fui almoçar em um restaurante perto da Unicamp e descobri que a família de lá era de Varpa. Perguntei se eram letos, e eram mesmo.

À primeiro momento, “tem leto por tudo que é canto”, mas sim uma constatação factual. As coincidências não acabaram por aí. Uma vez estava andando pelos corredores da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação quando me deparei com um outro leto que conhecia por nome - um professor de física de Nova Odessa. Isso tudo antes de conhecer um outro jovem estudante de Engenharia Química que era leto. Alguns anos depois, descobri que um dos fundadores da Equipe de Fórmula Elétrica que eu participava era… isso mesmo, leto.

Considerando que os 25 mil letos brasileiros compõem apenas 0,02% da população no Sul e Sudeste, coincidências como essas passam do anormal para o absurdo. Em um exercício de curiosidade, eu decidi pesquisar quais que eram os letos-brasileiros mais famosos dos nossos dias, e reuni essa pequena lista de nomes bem conhecidos. O objetivo desse artigo é mostrar que realmente, tem leto por tudo que é canto.

Para me manter fiel ao exercício, decidi apenas pegar figuras famosas vivas, portanto figuras como Guilherme Butler e Arthur Lakschevitz ficarão para outro artigo. Se há algum outro-leto brasileiro famoso que não foi mencionado, por favor me avise.

Nilson Klava

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Tem votação no Senado? Um político é preso? Discussão na Câmara? Se algo acontece nos corredores de Brasília - ele está lá para reporter. Nilson Klava é uma face familiar para aqueles que acompanham a política brasileira. Contratado aos 21 anos para ser repórter da GloboNews, começou sua carreira com matérias sobre o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. No mesmo ano, esteve de plantão durante as denúncias da Câmara dos Deputados contra o presidente Michel Temer e nas reformas da previdência e trabalhista no Congresso.

Em março de 2018, Nilson estreiou no Fantástico - o jornalista mais jovem à ocupar o cargo, com apenas 23 anos. Hoje ele é considerado um dos nomes mais relevantes do jornalismo político.

A família Kļava (em leto: “Acer”) chegou no Brasil em 1890, se instalando na Colônia Leta de Rio Novo (SC). A primeira geração dos Kļavas no Brasil foram 6 homens: Jacob, João, Rodolfo, Eduardo, Osvaldo e Eleonoro. A família Kļava foi influente no meio batista pela quantidade de pastores e obreiros, se espalhando por Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Foi no Oeste Paranaense, na cidade de Apucarana, que Nilson nasceu.

medium center No centro, em pé, Osvaldo Klava segurando o violão. Conjunto de cordas da Igreja Batista de Rio Novo, cerca de 1935

Ed René Kivitz

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Apesar de perder o posto de pastor evangélico mais influentes para figuras como Edir Macedo, Ed René Kivitz é um titã entre as igrejas, com a sua igreja, a Igreja Batista da Água Branca em São Paulo, atraindo cerca de 10 mil pessoas. Teólogo, conferencista e escritor, Kivitz é uma figura divisiva na opinião pública por suas idéias sobre a posição da igreja na sociedade, criticando a (e sendo criticado pela) banca evangélica no Congresso.

A família Kivičs (as vezes escrita como Ķīvīts) veio à colônia de Nova Odessa, em São Paulo. Seu patriarca, Rodolfo Kivitz, foi um dos obreiros de maior destaque na liderança da 1ª Igreja Batista de Nova Odessa, e serviu por vários anos como lider da Escola Bíblica Dominical. Hoje, Rodolfo Kivitz dá nome à uma das principais avenidas da cidade.

Vale mencionar seu filho de Ed também está ganhando sua fama. Victor Kivitz, que sob a alcunha simples de Kivitz, iniciou em 2014 sua carreira musical como rapper, produtor musical, arranjador e compositor brasileiro.

medium center Famílias Arais e Kivitz, em Nova Odessa. Acervo de Ronaldo Kivitz

Donald Schause

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Você tomou alguma multa por excesso de velocidade recentemente? Ótimo, então lembre de duas coisas: primeiro, tome cuidado (excesso de velocidade é uma das principais causas de morte no Brasil), e segundo, a invenção que você acabou de ver foi inventada por um Leto. Muitos não sabem, mas a Lombada Eletrônica não é só uma invenção Brasileira como é a invenção de um Leto-Brasileiro.

A família Šauss (Schause) chegou ao Brasil em 1914, se instalando em São José dos Campos, junto com outras famílias letas que vieram fugindo da Primeira Guerra Mundial. A família de Arvido Schause se mudou para Curitiba e iniciou um pequeno negócio de doce de banana. A empresa cresceu com a direção de seus filhos e se transformou em uma empresa de Automação Industrial. Após uma “renovação” ela passou a se chamar Perkons (Trovão, em leto)

Após um incidente durante um passeio no começo da década de 90, Donald Schause percebeu a necessidade de um sistema mais eficiente que o velho “quebra-molas”. A primeira lombada foi instalada em 1992 e o resto é história. Calcula-se que sete anos após a instalação da primeira lombada, o índice de acidentes reduziu em 40%.

medium center A Primeira Lombada Eletrônica do mundo, na rua Mateus Leme

Rodrigo Hilbert

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Ok, já sabemos o que você está pensando: O Rodrigo? Já iremos explicar. Caso você não o conheça (você vive embaixo de uma pedra?), vamos resumir: Rodrigo Hilbert começou a trabalhar aos 12 anos como artesão e ferreiro na oficina do avô. Aos 16 anos foi descoberto por uma agência paulista e virou modelo, se mudou para São Paulo, virou ator em várias novelas e filmes, depois virou cozinheiro, apresentador, menino-prodígio, factotum, homem renascentista, etc… etc…

A família Hilbert, de origem alemã, chegou no Brasil por volta de 1900 e se instalou junto da Colônia Leta de Rio Novo - algo que não era muito incomum para famílias alemãs que não eram luteranas. A família Hilbert logo foi introduzida à Igreja Batista de Rio Novo e com o passar das décadas, foram se misturando com os letos por meio de casamentos. Em 1892, com o casamento de Artur Paegle e Ana Frida Hilbert, 1893 com Selma Auras e Carlos Hilbert e finalmente em 1940 com Paulo Hilbert e Alvina Liepkaln.

Enquanto a maior parte das famílias letas de Rio Novo foram se mudando para outras regiões do Brasil (inclusive partes da família Hilbert se mudaram para Urubici), uma parte ficou em Rio Novo até se mudar para o centro de Orleans (o município da Colônia), onde Rodrigo nasceu.

medium center Casamento de Paulo Hilbert com Alvina Liepkaln.

Autor: Andreis Purim