Urubici hoje consta na lista de melhores destinos turísticos do Brasil. A pequena cidade, encrustada nos morros que formam a serra catarinense, é conhecida pelo seu clima frio e belíssimas paisagens naturais. Na última década a cidade cresceu vertiginosamente devido ao turismo e hotelaria.

Por isso, hoje nós falaremos um pouco da história dos letos da região. O artigo a seguir é um extrato da visita da historiadora e arquiteta teuto-brasileira Angelina Wittmann. O artigo completo pode ser lido aqui.

Após visitarmos Urubici em janeiro de 2015 – cidade da serra catarinense que recebeu vários grupos étnicos oriundos de outras regiões do Brasil e da Europa, vamos contar um pouco sobre uma das culturas que contribuiu para o desenvolvimento desta região, pelo menos, nas últimas seis décadas. Para um bom observador, basta um olhar mais apurado na paisagem, e perceber que ainda há a presença desta herança cultural que fez parte da formação e da história de Urubici – a presença cultural dos letos.

Letos – grupo, que além da fazer parte da história da cidade e presente, até os dias atuais na comunidade serrana, não perdeu contato com o grupo maior que imigraram para o Brasil e também, com a Letônia, seu país de origem.

Estes imigrantes não vieram diretamente para Urubici. Depois de desembarcar no porto de Laguna se estabeleceram-se em Orleans e arredores no sul de Santa Catarina.

Antes, porém, em 1888, dois jovens pastores, um pastor luterano e outro doutor em filosofia e pastor Batista: Karlis Balodis e Peteis Sahlitis, respectivamente, visitaram o Estado de Santa Catarina e colônias de imigrantes europeias existente na cidade de Grão-Pará e Orleans. Tinham interesse em conhecer mais sobre a imigração e vantagens oferecidas pelo governo brasileiro. Quando retornaram para a Letônia, fundaram uma Companhia de Imigração para promover a emigração de famílias letas para o Brasil e, especificamente, para o Estado de Santa Catarina.

Em abril de 1890, 25 famílias lideradas pelo Pastor Karlis Balodis embarcaram em Riga, capital da Letônia, rumo ao Brasil. Após escala na Alemanha, chegaram ao Brasil – no Porto de Laguna, onde receberam a quantia prometida para cobrir despesas de viagem e 480 mil m2 de terras. As terras deveriam ser pagas com a produção da lavoura e da pecuária. De Laguna, as famílias foram conduzidas para a o município de Orleans, onde foi fundada a primeira colônia de letos do Brasil – às margens do Rio Novo e batizada também de Colônia Rio Novo. A ausência de infraestrutura primária, a necessidade de derrubar a mata para locar os principais equipamentos de uma colônia, fez que muitas destas primeiras famílias buscassem outros locais com urbanidade, restando somente 4 famílias desta primeira leva, em Rio Novo. Mas, posteriormente, outras tantas famílias chegaram, em outros grupos de imigrantes letos à região e se fixaram na colônia.

Com já mencionamos, aconteceram movimentações sociais, políticas e econômicas nas primeiras décadas do Século XX, na Europa. A Letônia estava sob o domínio do império russo e muitos foram proibidos de praticar sua religião. Com isto, alguns resolveram fugir da perseguição religiosa e emigraram para o Brasil. A primeira Igreja Leta, e uma das primeiras igrejas batistas do Brasil, foi fundada em Rio Novo – ano de 1892.

A religião dos imigrantes letos foi a grande responsável de manter a hegemonia cultural do grupo no Brasil. Foi importante para a coesão dos imigrantes, que sofreram perseguições, não somente pelos russos – na Europa, mas também em solo brasileiro, por católicos de Orleans e posteriormente, também de Urubici.

Contam os antigos que em torno de 1920, não satisfeitos com o clima quente, muito diferente da terra natal, as condições e planos das colônias, um grupo de letos resolveu conhecer e subiu a serra catarinense pelas encostas da Serra Geral sobre lombo de mulas. O clima da serra era semelhante ao da terra natal e assim poderiam cultivar maçãs e trigo. Contam que subiram pela Serra do Engenheiro e pelo rio do Bispo, entre o Morro da Igreja e a Serra do Corvo Branco – atual Rodovia SC 350, chegando no Distrito da Esquina.

Ao longo da primeira metade do Século XX, chegaram em Águas Brancas – na época, Distrito de Bom Retiro, atualmente pertencente a Urubici, mais de 50 famílias descendentes ou imigrantes letos. Algumas famílias, como: Andermann, Auras, Elbert, Feldman, Freibergs, Frischenbruder, Karkle, Karkling, Klava, Klawinch, Lanka, Leepkaln, Legsdins, Leimann, Pägle, Sahlit, Zeeberg, Slengmanis, Karklis, Ungurs, Linde, Briedit, Ozols, Feldsberg, Maissim, Zalit, Karps, Grikis, Bruvers, Bumbiers, Ochins, entre outras. A origem da maioria destas famílias na Letônia era da capital do país – Riga e da cidade de Ventspils – também uma cidade portuária localizada no Báltico.

Ao chegarem, as famílias letas adquiriram as terras junto a encruzilhada dos caminhos que chegam em Urubici, nas proximidades do Rio Canoas. Esta encruzilhada (chamada de “Esquina”) hoje é um bairro da cidade. Foram mais de 3 Km adquirido ao longo da rua que liga a Esquina em direção à Santa Terezinha. Atualmente ainda podem ser encontradas as propriedades com os descendentes das mesmas famílias.

Muitas famílias que chegaram no final da primeira metade do Século XX,, também vieram de colônias letas do Estado de São Paulo, como a família Lanka, e também imigrantes direto da Letônia, como a Família Ozol, que chegou na cidade em 1930, São oriundos da vila Sloka, atual bairro de Jūrmala.

Até construir sua Igreja Batista, os letos se reuniam numa sala cedida pela Família Karp, que mais tarde doou o terreno para construir a mesma, em forma de mutirão e doações. Nos acabamentos da igreja tiveram auxílios dos letos pentecostais, alguns exímios carpinteiros. Os registros contam que neste período famílias pentecostais se converteram à Igreja Batista, como também ao contrário. Viviam em harmonia, até o momento que pastores pentecostais foram pregar na Igreja Batista, gerando um mal estar que interferiu nas boas relações entre as duas igrejas. Como a Igreja Batista não tinha sido registrada como seu patrimônio, esta foi apropriada por aqueles que ajudaram a construir e doaram o terreno – Igreja Pentecostal. O fato acelerou as providência para que construíssem a segunda igreja, agora pertencente a Igreja Batista Leta de Urubici que faz parte da paisagem da cidade até os dias atuais e visitamos neste mês de fevereiro.

Atualmente, a igrejas batistas letas do Brasil mantém uma tradição que acontece desde meados do século XX. Promove encontros de descendentes e letos espalhados pelo país em um grande momento de congraçamento e oração. Neste ano de 2015, o evento aconteceu na cidade de Urubici no mês de julho. Valdo Frischembruder comentou durante seu depoimento, gravado e postado nesta pesquisa. [Um outro artigo posterior relatará esse congresso]

Visitamos a Família de Ziedonies Frischembruder e também, conversamos com Valdo e João, seus filhos. O patriarca Krisch Frichenbruder (Nome é diferente por conta de erros durante registros no Brasil) e família, chegaram em Urubici no ano de 1931 da Colônia Rio Novo. Krisch era o pai de Ziedonies e avô do João e do Valdo. No meio de nossa conversa, foi lembrado novamente, que a Letônia foi domínio dos alemães, russos e poloneses.

Ziedonies nos contou que seu tio avô, Juris, escrevia para a família – sobrinhos, que poderiam vir sem medo para o Brasil. Descrevia um alimento oriundo da terra que “dava para comer e tinha semelhança com pó de serra e forma de vela”, reportando ao aipim e mandioca. Também mencionava que o trigo se dava a vontade. O tio avô de Ziedonies veio passear, e por questões politicas não poderia deixar a Letônia. Quando puderam sair do país, vendeu tudo e com sua família, em um primeiro momento, foram morar em São Paulo, para trabalhar nas plantações de café.

João Frischembruder comentou que os letos além de agricultores eram excelentes carpinteiros e muitas das tipologias históricas presente na cidade são resultados de seu trabalho, como por exemplo a tipologia de janela com folhas em guilhotinas com determinados desenho a partir da disposição das vidraças.

João é professor da língua leta, para quem quiser aprender e afirma ser muito difícil. Segundo ele, há palavras que se escrevem igual, mas conforme for sua colocação em uma frase – qual estiver inserida, muda sua pronúncia.

Muito bom saber que há um trabalho concreto, voluntário, pautado na consciência sobre a sua importância para a longevidade desta parte da história, não somente da cidade de Urubici, Santa Catarina, mas da história de um povo, que mantem sua identidade mesmo longe de sua pátria.

O primeiro hotel de Urubici foi fundado pela Família Andermann, também conhecido pelos mais antigos da cidade pelos doces que faziam e comercializavam no café e na padaria.

Conversamos com o neto de Emílio Andermann – Artus. Emílio foi o fundador do Hotel Andermann, da padaria e a venda localizada na esquina. A família chegou no Brasil no ano de 1918. Emílio tinha 18 anos e seu pai não queria mais participar da guerra e trouxe a família para o Brasil. Artus comentou conosco, que seu pai, filho de Emílio está um pouco desgostoso com a reação de muitos, que por falta de conhecimento, os hostilizavam por acharem que eram russos comunistas. Possuíam um equipamento de rádio amador e se comunicavam com a Letônia, na época já sob domínio soviético, o que levantava suspeitos das pessoas que ignoravam que muitos dos letos vieram para o Brasil para fugir do autoritarismo e domínio, primeiramente do império russo e depois do soviético.

Os Andermann, muito são bem relacionados com seu país de origem, recebiam revistas e isto era o suficiente para levantar suspeitas. Falavam fluentemente o leto, o alemão e o russo.

Artus, nos comunicou que pretendem desmontar a edificação do antigo Hotel Andermann construído por Emílio, o que lamentamos, pois é parte da história dos letos de Urubici, parte da história de Urubici e de Santa Catarina.

Também visitamos a Igreja Batista de Urubici e conversamos com o Pastor. A igreja é a mesma construída pelos primeiros letos que chegaram na cidade de Urubici na primeira metade do Século XX e está localizada na Rua Adolfo Konder, N° 2023.

A Igreja Batista de Urubici foi fundada no dia 25 de agosto de 1934 sob a coordenação do Pastor Carlos Stroberg e do diácono Oswaldo Auras. Na época a comunidade contava com 40 membros e era a 19° Igreja Batista Leta do Brasil. Lembrando que também existiam imigrantes e descendentes de letos que eram pentecostais (Assembleia de Deus). A edificação da igreja que existe até os dias atuais, com algumas descaracterizações, foi inaugurada no dia 25 de agosto de 1940.

As atividades sociais e religiosas na igreja são intensas, desde grupos de orações e cantos. Os grupos de canto tem o acompanhamento de instrumentos musicais. O Pastor nos apresentou alguns instrumentos musicais históricos, guardados com zelo, que foram trazidos pelos pioneiros.

A partir da história, cultura, tradição, religião, língua, nós conhecemos um pouco mais, a partir da escala de comunidade. Aprendemos um pouco mais sobre parte da História de Santa Catarina. História que também recebeu contribuição dos letos. Nossa gratidão a todos que, direta e indiretamente, contribuíram para este trabalho. Em especial, às famílias letas de Urubici.

Abraços de Blumenau!

Extrato do artigo escrito em 2015, por Angelina Wittmann, em seu blog.