Há uma semana completamos 100 dias de quarentena no Brasil. Nosso país é o segundo maior polo do Covid-19 no mundo, contabilizando 55 mil mortes. As comunidades letas no Brasil precisaram cancelar seus eventos por razões de saúde pública. Pela primeira vez em 70 anos a ABLB não realizará o Congresso Leto, que seria em Laguna. A tradicional festa Līgo, em Nova Odessa, foi cancelada, assim como os encontros do Grupo Leto de Curitiba.

Apesar de alarmante, 2020 não é a primeira vez que a comunidade leta do Brasil enfrenta uma pandemia global. Há 102 anos, a temida Gripe Espanhola assolava cidades brasileiras e empilhava cadáveres na rua – e ameaçava as recém-nascidas colônias letas no Brasil.

Graças ao acervo das Cartas de Rio Novo podemos ter uma noção do que os colonos pensavam na época da doença. No site estão inúmeras cartas trocadas entre amigos e parentes. Neste artigo, apenas destacaremos as partes sobre a Gripe Espanhola, mas as cartas completas podem ser acessada clicando nos seus respectivos cabeçalhos (local e data).

Como já discutimos em artigos anteriores, os primeiros imigrantes da Letônia desembarcaram no Brasil em 1890 criando a colônia de Rio Novo, em Santa Catarina. Nas décadas seguintes diversos destes letos se espalharam pela região sul e sudeste do Brasil, construindo cidades como Ijuí, Urubici e Nova Odessa.

A epidemia foi trazida ao Brasil pelos marinheiros ingleses no Rio de Janeiro em setembro de 1918. Mas as autoridades brasileiras trataram com descaso as notícias da alarmante pandemia que se alastrava pela Europa. Ao mesmo tempo, a população se demonstrava ignorante ao perigo que estava para chegar. Não demorou para a doença atingir cifras exorbitantes. No Rio de Janeiro, 600 mil adoeceram, 66% da cidade.

No ano da pandemia, alguns estudantes letos da colônia de Rio Novo estudavam na capital. A primeira menção da temida doença foi em uma carta escrita pelo pastor Carlos Leiman ao seu amigo Reynaldo Purim, que na época estudava no Seminário Teológico do Sul do Brasil, sediado no Rio de Janeiro.

Os boatos por aqui, vindos do Rio, são de atemorizar o mundo. O que há de realidade ahi? A “Hespanhola” já chegou até o Collegio? Está funcionando ainda? Nós fechamos o Collegio ainda que sem motivos de força maior, pois aqui a “tal” não inspira medo, porem o povo está alarmado e é o peior. Qual é o teu destino pelas ferias? Já resolveu? Estou propondo um negocio ao Sr. Reno – Se ele aceitar…? Não sei – porem quero saber alguma cousa de ti — direta e francamente.

- Carlos Leiman, em Outubro de 1918.

Reynaldo Purim, nascido na colônia em 1897, havia frequentado a mesma escola e mesma igreja que Leiman era pastor. Quase como um mentor, ambos eram grandes amigos e discutiam as questões da colônia. Reynaldo havia saído de Rio Novo no ano anterior, 1917, para estudar teologia no Rio de Janeiro.

A próxima menção da infame doença foi feita pela sua irmã, Olga Purim, em carta do Rio Novo:

(…) Fazia já bastante tempo que não tínhamos notícias suas, e por isso não sabíamos onde tinhas ficado nas férias. A carta de 18 de novembro foi extraviada, bem como a de 7 de outubro.

(…) As cartas provavelmente se perdem, pois diversos navios não foram autorizados a entrar no porto de Laguna por causa de muitos passageiros com a “doença”. Então, não admira que tantas cartas ficaram extraviadas.

Nós estamos todos com saúde. Ninguém de nós pegou essa doença. Aqui no Rio Novo alguns pegaram a gripe e em Orleans alguns já morreram, mas entre os nossos ninguém. Alguns tem tanto medo não saem da sua propriedade para não pegar a doença, mas eu vou frequentemente a Orleans e não peguei nada.

Semanas atrás os Grikis estavam doentes, mas nada sério. O velho Sommers está muito doente, mas não com a gripe. Então a Luzija mandou papai fazer o caixão. Papai ficou lá nos Grikis o dia inteiro e a gente ficou preocupada pela possibilidade de ele ter pego a doença, mas nada. Bem que haveria de novo.

(…) [Jurgis Karklis] contou que em Porto Alegre morre gente como moscas e que viaturas andam pelas ruas catando cadáveres — mais de mil por dia, o que impossibilita enterrar todos. Em São Paulo e no Rio também é igual; ele se salvou porque carregava um vidro de creolina junto ao nariz por todo tempo. Mas ele é muito papudo, muito prosa. (…)

- Olga Purim, em Dezembro de 1918.

O relativo isolamento geográfico da Colônia – perto da serra Catarinense – atrasou a chegada da doença por apenas alguns meses. Enquanto cidades brasileiras inteiras eram devastadas, os colonos apenas sabiam das notícias de viajantes. As primeiras infecções entre os letos começou no natal de 1918.

(…) Desta vez não tenho nada de bom para te escrever. Nós estaríamos passando bem se não fosse essa epidemia, essa doença universal, que chegou até a nossa casa. Pode ser que você já tenha esquecido dessa doença, mas foi só agora que ela chegou até aqui.

Faz tempo que esta epidemia estava em Orleans e aqui no Rio Novo também, mas aqui em casa começou com uma dor de cabeça e um cansaço, moleza do corpo. Como o dia estava muito quente, pensei que fosse por causa disso. No outro dia não tinha mais nada, somente um pouco de tosse, e assim a minha doença cedeu com um bom sono. A Luzija teve que ficar deitada no dia do Ano Velho. O Arthur e a Mamma depois do Ano Novo. Nós quase não ficamos acamados, mas somente com muita tosse. Mas com o Papus [“papai”, Jahnis Purins] que sempre aguentou firme enquanto os outros estavam doentes, começou no domingo e ele foi para cama mesmo — e está mais tempo do que nós todo mundo juntos. Hoje parece que está um pouco melhor.

Aqui parece que não teve nenhuma casa onde não houvesse alguém doente. Agora os Klavin e os Leiman estão doentes. Aqui nas colônias não é tão forte, mas lá em Orleans diversos brasileiros já vieram a falecer devido a essa doença; também muitos, depois de passar um bocado difícil, vieram a se recuperar.

Em Orleans foram improvisados dois “hospitais”: um no cinema e outro na casa do Jurk Jakboson. Alguns letos que foram visitar estes lugares disseram que num lugar destes é muito provável que os doentes só possam piorar e dificilmente possam sarar, por não haver a mínima ventilação: as janelas são mantidas todas completamente fechadas e devido a esse fato lá dentro faz mais calor que uma sauna.

(…) [Sobre as festividades natalinas] Visitantes não havia tantos quanto os outros anos; uma explicação é que devido à epidemia da gripe diversas pessoas tem evitado ajuntamentos, (…)

[Escrito na lateral:] 9-1-19 – Hoje recebi os jornais de 14-12-18. Carta, nenhuma. Vou ter que esperar mais. Sinceras lembranças da Olga.

- Olga Purim, em Janeiro de 1918

Felizmente, a família de Olga sobreviveu à epidemia. Entretanto, a doença levou alguns dos colonos mais idosos. Não se sabe ao todo quantos letos morreram devido à gripe espanhola de 1918, mas os relatos parecem indicar que as colônias não foram atingidas tão fortemente quanto as cidades.

(…) Nós agora graças a Deus estamos bem, todos com saúde e podemos todos trabalhar novamente. Como já escrevi em outra carta aquele “espanhol” [Gripe espanhola] se instalou lá em casa, mas agora já foi embora e nem todos fomos muito afetados. Quem ficou mais tempo de cama foi o Paps que ficou uma semana inteira.

Trabalho, como sempre, temos demais. (…)

[Cartão postal datado com o carimbo de Orleans: 12 de fevereiro 1919]

O velho Zommer morreu no dia 20 de dezembro na casa dos Grikis e o enterro foi no dia seguinte. Nos últimos tempos estava tão mal que não reconhecia ninguém e não conseguia se mexer.

O Jurgis Karklin, como já escrevi, está em casa, mas agora não se ouve a grande “prosa” contando aquelas grandezas, nem fala de ir embora. (…)

- Olga Purim, em Fevereiro de 1919.

E então, até o final de 1920 a árdua pandemia finalmente afroxou suas garras. Sem hospitais ou ajuda governamental, os Letos sobreviveram à Gripe Espanhola. A Colônia resistiu esse árduo teste de resiliência e continuou a ser a casa dos muitos e muitos imigrantes que haviam feito do Brasil sua terra. Entretanto, este não foi o último encontro dos Letos com a doença:

Saúde!! Ontem cheguei de volta de Vitória, onde passei um mês inteiro viajando, estou agora deixando para traz mais 9 léguas a cavalo [quase 60 quilômetros], estarei em casa no sábado para começar as aulas na segunda feira.

O tempo está muito frio e chuvoso e o povo está doente com a gripe espanhola. (…) - Carlos Leiman, Julho de 1921

Fica para nós – os que vivemos os dias atuais – aprendermos com nossos antepassados. Não importa o quão desesperadores ou preocupantes os anos seguintes se tornem, sempre poderemos olhar para o passado e ver o quão diferente, mas quão similar, são nossas vidas. No futuro, chegará a nossa vez de contar as nossas histórias para as novas gerações. A pandemia do Covid-19 se tornará mais um dos muitos desafios na história dos letos-brasileiros. Então, fica a nós aprendermos e preservarmos essas histórias para serem contadas no futuro.

Imagem de Capa: Hospital de campanha de 1918 montado no Club Athletico Paulistano em 1918 / Reprodução
Autor: Andreis Purim.
Agradecimentos à Alice e Arvido Purim.