Em 1888, os jornais na Letônia falavam de uma terra de palmeiras, onde a riqueza era tão grande e as distâncias tão enormes que não havia guerra. Não demorou muito para que a imigração leta para o Brasil começasse. Em 1889, as primeiras famílias se estabeleceram e fundaram a Colônia de Rio Novo, que logo recebeu leva após leva de imigrantes buscando a terra da paz e prosperidade.

Entretanto, mal os colonos letos sabiam mas uma brutal guerra civil estava para estourar em apenas alguns anos. Disputas políticas mal-resolvidas e uma república instável se tornaram terreno fértil para que estourasse no estado vizinho, o Rio Grande do Sul, um movimento que visasse derrubar o governo federal.

O sonho da colonização leta no Brasil quase foi destruído em 1893, com a colônia cercada por acampamentos militares que visavam saquea-la.

As Primeiras Colônias

A cidade de Orleans - situada na região litorânea do sul de Santa Catarina - é cortada pelo rio Hipólito (na época, chamada de rio Tubarão). O principal afluente deste rio é o rio Novo, onde foi fundada a primeira Colônia Leta. Um outro afluente que corre paralelo ao Hipólito é o rio Laranjeiras, e ao sul outro afluente chamado rio Oratório.

Rio Novo foi o local escolhido para a primeira colônia leta do Brasil, e logo cresceu com a chegada de várias famílias letas entre 1890-1892. Logo a colônia cresceu de tal forma que os imigrantes foram se espalhando pela região adjascente, populando também as regiões do Rio Laranjeiras, Rio Oratório, Mãe Luzia e Araranguá.

De todas essas colônias citadas, ao final de 1895, apenas Rio Novo sobreviveria como um núcleo para os colonos letos.

medium center Mapa da região de Orleans, com a colônia leta de Rio Novo e Lauro Muller (onde era a colônia leta do Rio Oratório)

A Revolução Federalista

O Rio Grande do Sul é, historicamente, uma das provínciais mais instáveis do Brasil. Após a proclamação da República em 1889, duas forças políticas ganharam força no estado: a primeira era formada por republicanos e militares que desejavam uma República forte e autoritária.

O segundo grupo era de estancieiros e elites tradicionais do pampa gaúcho, que possúiam comércio entre as fronteiras da Argentina e Uruguai que buscavamo Parlamentarismo e o Federalismo na República.

Os combates começaram com os Federalistas tentando remover o autoritário governador do Rio Grande do Sul. Entretanto, quando o governador apelou para o governo federal - alegando que a revolução pretendia restaurar a monarquia - o conflito logo se alastrou para todo o sul do país.

Chegam os Soldados

Até a metade de 1893, os combates entre forças federais e revolucionários haviam se confinado quase inteiramente ao Estado do Rio Grande do Sul. Entretanto a situação mudou quando os revolucionários avançaram norte, com o objetivo de instaurar a revolução nos estados de Santa Catarina e Paraná, e avançar até a capital, no Rio de Janeiro.

As tropas revolucionárias chegaram ao estado de Santa Catarina em Novembro de 1893, Fora algumas unidades expedicionárias que haviam sido ordenadas para caçar os revolucionários, o exército brasileiro era desorganizado e não conseguiu organizar a defesa do estado de Santa Catarina, A maior parte das tropas federais debandou e fugiu com a chegada dos revolucionários. O colono Ans Elbert (1890 – 1913) recorda em suas memórias:

Como surgiu no Brasil uma revolução e exércitos com soldados já estavam perto e estes sem piedade se apossavam de tudo que tenha algum valor principalmente animais usados para carga e alimentação então o Diretor [da Companhia de Colonização] mandou uma mensagem para a Igreja comprometendo-se que na medida do possível iria defender a Colônia letã da sanha da soldadesca.

Os poucos letos que habitavam em Araranguá e Mãe Luzia, no sul de Santa Catarina, tiveram contato com a brutalidade das tropas que subiam pelo litoral. Como os revolucionários não possuíam muitos recursos e apoio logístico era inexistente, os soldados “viviam da terra”, isto é, coagiam os habitantes a entregarem sua colheita e seus pertences. Bastava apenas entrar nas colônias e exigir bovinos para alimentação e mulas para transporte.

As tropas revolucionárias não eram hierarquizadas, e portanto, as cidades que caíam em suas mãos estavam sujeitas a saques e tribunais revolucionários. A Revolução Federalista é comumente chamada de “Revolta da Degola” pela prática habitual dos soldados executarem seus opositores cortando-lhes o pescoço.

No final daquele ano e começo de 1894, as forças do governo (1º Regimento de Cavalaria e 3º Batalhão de Infantaria da Divisão do Norte), sob comando do Coronel Salvador Pinheiro, entraram em combate com forças revolucionárias do General Salgado na Serra do Oratório, apenas alguns quilómetros de distância das colônias de Rio Oratório e Rio Novo.

O General Salgado então ordena suas tropas descerem a serra e ocuparem o litoral de Santa Catarina. A primeira cidade que os revolucionários encontram é Orleans, o município onde ficavam as duas primeiras colônias letas do Brasil.

medium center Jornal do governo anunciando a vitória da Divisão do Norte e o recuo das tropas revolucionárias para Orleans.

O Blefe

Com a tomada de Orleans pelos revolucionários, e sem esperança do governo intervir, os colonos letos começaram a temer o pior. As redondezas se tornaram perigosas com o número de acampamentos militares. Não só os soldados podiam saquear as propriedades da colônia, como também a falta de conhecimento no português poderia fazer qualquer desentendimento com um soldado poderia terminar com um colono degolado.

O Diretor da Companhia Colonizadora conseguiu armas para um pequeno grupo de colonos da região (além de letos, italianos, alemães e poloneses) para patrulharem as estradas. Além disso, os colonos pegaram o sino da igreja batista, que havia sido doado pela Companhia, e o esconderam em camuflando no topo de um morro - o badalar do sino indicava a aproximação dos militares saqueadores e assim, os colonos tinham tempo de esconder os animais e pertences. Havia também uma reserva de comida e água, se fosse preciso esconder os animais por vários dias.

Mas, mesmo com todas essas preparações, os soldados ainda não haviam sido totalmente dissuadidos de entrar na colônia. Os líderes da Colônia então contrataram um alemão (ou polonês) que dominava a língua para enganar os soldados. Ele acompanhou a patrulha dos letos até encontrar um grupo militar que vigiava a região. O alemão então se aproximou desarmado dos militares e aconselhou-os a evitar o caminho dos “russos” (como eram conhecidos os Letos de Rio Novo), insistindo na rudeza e ferocidade deste povo do “fim do mundo”.

O oficial ouviu as palavras do desconhecido, e com um sorriso desconfiado, decidiu não prosseguir o caminho. Logo as notícias se tornaram fofocas entre os soldados do General Salgado, despertando até curiosidade sobre essa desconhecida colônia. Como seriam estes semibárbaros “russos” que ameaçam oferecer resistência até a um exercito?

Contava que parte mais baixa do Rio Novo o rio descia por cascatas e saltos e fazendo um ruído ensurdecedor e a inclinação do terreno era muito acentuada. O caminho era com declive acentuado e prensado entre o rio e barrancos enormes que os letos tinham desenterrado imensas pedras que com leve toque cairiam dos barrancos e desceriam pelo caminho abaixo a roldão levando os soldados e seus animais.

Que também mais para cima tinham sido colocados explosivos entre as pedras para segunda avalanche matando ainda mais soldados. Se não recuassem os pelotões de colonos muito bem protegidos matariam alguns que tivesse restado. Mas se conseguissem subir pelo vale outros pelotões estariam a sua espera e que não pensassem que poderiam reagir, pois eles tinham os seus próprios caminhos alternativos pelas matas.

Sob ordens de algum oficial, alguns soldados haviam sido deixados em Orleans como sentinelas. Entre os letos, a recomendação era não ir para a cidade a não ser em casos extremos.

medium center Um soldado sendo executado pelo método da “degola” (Foto: Affonso de Oliveira Mello/Biblioteca Nacional).

A Morte do Soldado

Em uma madrugada, um dos letos que morava no Rio Carlota (a colônia adjacente ao Rio Novo) resolveu ir à cidade para fazer compras no Armazém da Companhia de Terras. Apesar de ter feito as compras rápido, logo foi identificado como um dos colonos devido ao sotaque. Após sair discretamente da cidade, estava prestes a voltar para a Colônia quando percebeu que um dos soldados o seguia.

Para o colono, entrar pela picada principal não era conveniente, pois ela era vigiada pela patrulha e em qualquer troca de tiros, ele poderia muito bem sair ferido. Ele decidiu seguir até o Rio Laranjeiras, um rio que corre paralelo ao Rio Novo, e contornar a colônia por um caminho mais longo. Quem sabe assim o soldado desistiria, mas não desistiu.

Após algumas horas com o soldado e seu fuzil seguindo-o, o colono percebeu que se não agisse agora teria levado os revolucionários até a porta de sua casa. Fingindo estar trocando a carga do armazém de ombro, colocou o chumbo em seu rifle “pica-pau” (um rifle antigo que era carregado pela boca), e após uma curva, terminou de socar a carga. Quando o soldado revolucionário fez a curva, foi atingido no peito com um dos chumbos.

O Colono logo pegou o corpo e o rifle Mannlicher do soldado e o escondeu no meio da mata, antes que alguma expedição encontrasse o corpo e a entrada da colônia. Esse caso em particular é um dos muitos episódios de confrontos menores entre os colonos e os soldados. Não se sabe ao certo se mais soldados morreram procurando o caminho para a mítica colônia, mas logo as tropas revolucionárias retornaram seu avanço ao norte.

O corpo nunca foi encontrado, e depois desse último episódio de violência, as tentativas dos revolucionários de encontrar um caminho até a colônia de Rio Novo cessou. A região onde o soldado foi morto depois ficou conhecida como Bukovina (o nome vem de uma região montanhosa e florestada entre a Romênia e Ucrânia) que pertencia ao Dr. Reynaldo Purim.

Consequências (e a fundação de Ijuí)

Os Letos vieram ao Brasil acreditando que o país estaria seguro das guerras e revoltas que aconteciam na Europa. e apesar da Colônia de Rio Novo ter sobrevivido, a revolução federalista mudou radicalmente o caminho da colonização no Brasil. O modelo de liderança na colônia entre 1893-1895, uma colônia independente do governo brasileiro e aquém das disputas políticas brasileiras, virou molde para as colonias que seguiriam.

O ano de 1893 atrasou o trabalho na colônia por quase um ano, a ponto de que a construção do templo definitivo da Igreja Batista foi postergada, com um segundo templo temporário sendo construído em 1894.

Além disso, a revolução federalista resultou no fim da Colônia do Rio Oratório, devido à ocupação do local pelas tropas revolucionárias. No final 1893, as famílias que viviam no Rio Oratório se mudaram para o Rio Grande do Sul, fundando Ijuí, enquanto outras colunas adjascentes à Rio Novo, como Rio Laranjeiras e Rio Carlota, acabaram sendo “incorporadas” a estrutura de Rio Novo, unificando os letos do litoral catarinense em uma única Colônia.

medium center Foto de alguns colonos e o segundo templo da Igreja Batista de Rio Novo, em 1895, o ano que o conflito acabou.

Autor: Andreis Purim